Krig-há Bandolo! A imagem contemporânea do diabo como um ser pessoal que lidera uma legião de demônios – seres também pessoais, de caráter maléfico e destrutivo - e que trabalha ativamente na sociedade e em algumas pessoas tem origem no dualismo persa. Contudo, foi durante o período medieval que tal imagem se cristalizou no inconsciente coletivo do Ocidente, como bem demonstra Jean Delumeau em seu estudo sobre a história do medo no Ocidente.
Isso se deu gradativamente e atingiu seu auge durante as diversas crises que assolaram a Europa após o ano de 1300. As pestes que dizimavam multidões, a vitória dos muçulmanos sobre tropas cristãs nas regiões do mar adriático e a posterior perda de Constantinopla fizeram com que a Europa mergulhasse no que Delumeau chamou "choque psicológico coletivo".
Diversos teólogos sentiram a ameaça da cristandade sitiada e passaram a procurar explicações teológicas para a crise. Desde então, o diabo - que antes se pensava derrotado definitivamente por Cristo - começou a ganhar mais destaque. Ao seu poder eram atribuídas todas aquelas ameaças. Delumeau mostra como o medo passou a ser um sentimento onipresente na cristandade.
Nesse clima de insegurança coletiva aumentou a desconfiança para com tudo o que fosse diferente, exógeno e que não se enquadrasse ou não pudesse ser explicado satisfatoriamente pelos quadros conceituais da teologia da época. Nesse período desenvolveu-se em grau extremo a satanização de muçulmanos, judeus e mulheres.
Naturalmente, a figura do diabo já existia, mas diante da superioridade religiosa do cristianismo, não incomodava muito. Era uma entidade vencida, derrotada ou "amarrada" conforme a linguagem do Apocalipse. Mas as sucessivas crises medievais cooperaram na reabilitação de sua importância funcional e na crença de que ele estava livre e agindo através de várias artimanhas no mundo a fim de desestabilizar a sociedade. Todos conhecemos, ao menos em parte, as diversas histórias da inquisição, torturas, fogueiras acesas e dos mecanismos pelos quais se interiorizava a crença no diabo.


























