sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

10 poemas profundos e melancólicos de Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos, poemas


O poeta nasceu no ano de 1884, em Paraíba, e acabou por se formar em Direito, porém decidiu seguir carreira no magistério, tornando-se assim, professor de Literatura no Rio de Janeiro. O autor morreu em 1914, de pneumonia.

Augusto dos Anjos foi um grande poeta, o maior crítico de seu tempo, publicou inúmeros poemas com uma línguagem demasiada rebuscada, e com um ínfimo sentimento aflorando à cada verso, apesar de ser bastante popular, o mesmo só possui um livro publicado, cujo carrega o título de "Eu", lançado no ano de  1912, dois anos antes de sua morte.

Compartilho com vocês dez grandiosas obras desse poeta que soube usar as palavras de acordo com suas necessidades, encantando até hoje um público tanto jovem quanto mais velho mundo à fora.

Confiram.

1: Eterna Mágoa

O homem por sobre quem caiu a praga
 Da tristeza do Mundo, o homem que é triste
 Para todos os séculos existe
 E nunca mais o seu pesar se apaga!
 Não crê em nada, pois, nada há que traga
 Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
 Quer resistir, e quanto mais resiste
 Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. 
 Sabe que sofre, mas o que não sabe
 É que essa mágoa infinda assim, não cabe
 Na sua vida, é que essa mágoa infinda
  
Transpõe a vida do seu corpo inerme;
 E quando esse homem se transforma em verme
 É essa mágoa que o acompanha ainda!
  


2: Psicologia de um Vencido

  
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
 Monstro de escuridão e rutilância,
 Sofro, desde a epigênese da infância,
 A influência má dos signos do zodíaco.
 Produndissimamente hipocondríaco,
 Este ambiente me causa repugnância...
 Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
 Que se escapa da boca de um cardíaco. 
 Já o verme — este operário das ruínas —
 Que o sangue podre das carnificinas
 Come, e à vida em geral declara guerra, 
 Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
 E há de deixar-me apenas os cabelos,
 Na frialdade inorgânica da terra!
  


3: Versos Íntimos

  
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
 Enterro de sua última quimera.
 Somente a Ingratidão – esta pantera –
 Foi tua companheira inseparável!
 Acostuma-te à lama que te espera!
 O homem, que, nesta terra miserável,
 Mora, entre feras, sente inevitável
 Necessidade de também ser fera. 
 Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
 O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
 A mão que afaga é a mesma que apedreja. 
 Se alguém causa inda pena a tua chaga,
 Apedreja essa mão vil que te afaga,
 Escarra nessa boca que te beija!
  


 4) O Morcego
  
Meia-noite, ao meu quarto me recolho.
 Meu Deus ! E este morcego! E, agora, vede:
 Na bruta ardência orgânica da sede,
 Morde-me a goela ígneo e escaldante molho
 ” Vou mandar levantar outra parede …”
 - Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
 E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
 Circularmente sobre minha rede 
 Pego de um pau. Esforços faço. Chego
 A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
 Que ventre produziu tão feio parto?!
  
A consciência humana é este morcego!
 Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
 Imperceptivelmente em nosso quarto.
  


5: Agonia de um Filósofo
  
Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
 Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...
 O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
 Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
 Assisto agora à morte de um inseto...!
 Ah! Todos os fenômenos do solo
 Parecem realizar de pólo a pólo
 O ideal de Anaximandro de Mileto! 
 No hierático areópago heterogêneo
 Das idéias, percorro como um gênio
 Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!... 
 Rasgo dos mundos o velário espesso;
 E em tudo, igual a Goethe, reconheço
 O império da substância universal!
  


6: Idealização da Humanidade
  
Futura Rugia nos meus centros cerebrais
 A multidão dos séculos futuros
 — Homens que a herança de ímpetos impuros
 Tornara etnicamente irracionais!–
 Não sei que livro, em letras garrafais,
 Meus olhos liam! No húmus dos monturos,
 Realizavam-se os partos mais obscuros,
 Dentre as genealogias animais! 
 Como quem esmigalha protozoários
 Meti todos os dedos mercenários
 Na consciência daquela multidão... 
 E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
 Somente achei moléculas de lama
 E a mosca alegre da putrefação
  


7: O Deus-Verme

  
Fator universal do transformismo,
 Filho da teleológica matéria,
 Na superabundância ou na miséria,
 Verme — é o seu nome obscuro de batismo.
 Jamais emprega o acérrimo exorcismo
 Em sua diária ocupação funérea,
 E vive em contubérnio com a bactéria,
 Livre das roupas do antropomorfismo. 
 Almoça a podridão das drupas agras,
 Janta hidrópicos, rói vísceras magras
 E dos defuntos novos incha a mão... 
 Ah!Para ele é que a carne podre fica,
 E no inventário da matéria rica
 Cabe aos seus filhos a maior porção!
  


8: Vozes De Um Túmulo

  
Morri! E a Terra — a mãe comum — o brilho
 Destes meus olhos apagou!... Assim
 Tântalo, aos reais convivas, num festim,
 Serviu as carnes do seu próprio filho!
 Por que para este cemitério vim?!
 Por quê?! Antes da vida o angusto trilho
 Palmilhasse, do que este que palmilho
 E que me assombra, porque não tem fim! 
 No ardor do sonho que o fronema exalta
 Construí de orgulho ênea pirâmide alta...
 Hoje, porém, que se desmoronou 
 A pirâmide real do meu orgulho,
 Hoje que apenas sou matéria e entulho
 Tenho consciência de que nada sou!
  


9: A Nau

  
Sôfrega, alçando o hirto esporão guerreiro,
 Zarpa. A íngreme cordoalha úmida fica...
 Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica
 E ébrios tritões, babando, haurem-lhe o cheiro!
 Na glauca artéria equórea ou no estaleiro
 Ergue a alta mastreação, que o Éter indica,
 E estende os braços de madeira rica
 Para as populações do muno inteiro! 
 Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda,
 Pára e, a amarra agarrada à âncora, sonha!
 Mágoas, se as Tem, subjugue-as ou disfarce-as... 
 E não haver uma alma que lhe entenda
 A angústia transoceânica medonha
 No rangido de todas as enxárcias!
  


10: Idealismo
  
Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
 O amor da Humanidade é uma mentira.
 É. E é por isto que na minha lira
 De amores fúteis poucas vezes falo.
 O amor!Quando virei por fim a amá-lo?!
 Quando, se o amor que a Humanidade inspira
 É o amor do sibarita e da hetaira,
 De Messalina e de Sardanapalo?! 
 Pois é mister que, para o amor sagrado,
 O mundo fique imaterializado
 — Alavanca desviada do seu fulcro — 
 E haja só amizade verdadeira
 Duma caveira para outra caveira,
 Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!


Adaptado de: Universia
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