sexta-feira, 13 de março de 2015

Begotten




















Começo a sexta-feira 13 trazendo esse filme resumidamente macabro e sinistro. Poucos são os que não se sentem desconfortáveis o assistindo, e muitos são os relatos de traumas, pesadelos, pânico entre outras "sequelas" que o filme deixa, portanto esse é um filme só para os que possuem psicológico forte.

Sinopse: Numa sala, um Deus vestido majestosamente mata-se, cortando-se sucessivamente com uma lâmina. De baixo de si emerge uma mulher, a Mãe Terra, que masturba o deus morto, impregnando-se com o seu sémen. A mulher dá à luz o Filho da Terra, que surge, adulto num deserto, onde contorce convulsivamente. Este é arrastado por um grupo de homens, que depois o violentam e dilaceram. Encontrado pela Mãe Terra, o Filho da Terra surge ressuscitado, e limpo, sendo levado por ela. Ela própria é encontrada pelos mesmos homens, que violam longamente a Mãe Terra e esta fecunda a terra debaixo de si, e após ela e o filho serem desmembrados e enterrados, a terra ganha vida, tornando-se uma floresta.



















Antes de se tornar mundialmente conhecido, pela realização de “A Sombra do Vampiro” (Shadow of the Vampire, 2000), o americano Edmund Elias Merhige realizou este “Begotten”, um filme experimental, filmado com técnicas radicais de vanguarda, que levaram, segundo o próprio realizador, a que para cada minuto de filme fossem necessárias dez horas de filmagens e pós-produção.

Antes de mais deve explicar-se que “Begotten” é um filme a preto e branco, com uma imagem extremamente granulada, com um contraste exagerado que torna cada imagem um conjunto de manchas que vão borbulhando no ecrã, sem textura reconhecível, e de contornos indefinidos, por vezes parecendo-se simplesmente com desenhos a carvão numa tela branca.

O filme (cujo título significa em português: “Gerado”) é uma representação de carácter mitológico, ou metafísico, indo ao que de mais profundo e visceral existe nas diversas religiões. Guiados pelos títulos no elenco que nos definem o Deus que se mata a si próprio, a Mãe Terra, e o Filho da Terra, acompanhamos uma história sem palavras que não sejam a legenda inicial que fala de luz e trevas como analogia para a vida que é a carne que preenche os ossos.

Esse contraste entre luz e trevas marca todo o filme, como dito atrás, numa história de profunda violência, sexualidade e transformação carnal, filmadas de modo cru e sujo, como a própria fotografia possibilita.
Assim assistimos a uma renovação ou criação universal, que como em tantas mitologias passa pela morte de um deus primordial, que possibilita o rearranjo do universo a partir do seu corpo desmembrado, levando a que rituais de fecundação tragam uma nova idade fértil.




















Todas essas fases são filmadas de modo assustador, por exemplo no modo como o Deus se corta sucessivamente, nas substâncias asquerosas que o seu corpo expele, no comportamento continuamente convulsivo do Filho da Terra, ou na violência das agressões, desmembramentos e violações.
A sucessão de imagens surge como um bailado, onde os contornos gerais criam movimentos que são mais importantes que o detalhe da representação ou dos actores, numa alternância entre os quadros que envolvem os três personagens principais, e imagens da transformação dos céus, tudo levando à frase inicial que descreve o mundo como a reencarnação da matéria.

Seja nas cenas de masturbação explícita, nas sucessivas mortes, na violência extrema, na sexualidade levada a um exagero de violência, na contínua transformação corporal, por vómito e mutilação, ou a todas as substâncias negras expelidas dos corpos em sofrimento, o filme torna-se um pesadelo, que funciona como uma representação mitológica mecânica, animal e visceral, desprovida de qualquer sentido literário ou beleza.

“Begotten” é interpretado por actores da companhia de teatro experimental do próprio Merhige, Theaterofmaterial, e é acompanhado de um tratamento de som composto por repetitivos sons de grilos sobre inúmeros estalidos e ressoares indistintos.

A curta metragem de 2006, “Din of Celestial Birds” é, segundo Merhige, a segunda parte de uma trilogia começada com “Begotten”.


Abaixo segue o filme original completo.


Será que sua mente lhe permite assistir o filme inteiro?

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