domingo, 7 de setembro de 2014

Funny Games (Violência Gratuita)


Acabei de ver esse filme e decidi ligar novamente o computador apenas para escrever essa postagem sobre esse filme simplesmente fantástico.

Sinopse: Casal rico (Naomi Watts e Tim Roth) curte o início das férias com seu filho em uma casa à beira de um lago. Enquanto o marido e o menino cuidam do barco, a esposa recebe a visita de um educado vizinho (Michael Pitt) que pede ovos emprestados. Ele e outro sujeito, que chega logo depois, não irão mais sair da casa. A família é mantida em cativeiro pelos dois invasores, que executam jogos sádicos e violentos.

Acredito que nenhuma sinopse ou trailer é capaz de definir ou mesmo resumir esse filme, só assistindo para sentir o impacto que o mesmo trás.

A julgar pela capa e sinopse, pensei ser mais um daqueles filmes envolvendo psicopatas e muito sangue, porém fui enganado mais uma vez. Tudo o que tenho para dizer é que o filme possui um aspecto muito simples, tranquilo de uma maneira bastante intensa.

Resumidamente um terror não apenas crítico, como totalmente psicológico.

Essa é uma refilmagem do filme original de 1997, e continua com o mesmo aspecto antigo com a famosa "câmera observadora" que mostra a mesma cena por um longo tempo com finalidade de mostrar detalhadamente determinadas ações, algo que particularmente acho que aproxima os telespectadores mais da trama.

São 107 minutos de tensão, que mostram de maneira bastante explícita (mas ao mesmo tempo reservada) a degradação do casal diante de toda a insanidade dos dois jovens que não apresentam nenhuma razão lógica para justificar suas atitudes irracionais.

O que mais apavora é a imprevisibilidade do vilão principal da trama, que muda rapidamente de opinião e faz tudo sem motivos. Agride sem razões, enfim, não se sabe o que ele fará em seguida.

O aspecto geral do filme (inclusive a ausência de trilha sonora) aproxima o telespectador da trama, e o faz se sentir dentro da mesma, sentindo a insanidade dos vilões e a agonia das vítimas.

Violência Gratuita é um daqueles filmes para refletir, onde se pode tirar diversas conclusões sobre o mesmo, dependendo do ponto de vista de cada um, o mesmo constrói seu suspense baseado nisso, até onde vai os limites não só da alma, como da mente humana.

Deixarei logo abaixo uma crítica que achei bastante interessante e esclarece bastante coisas para quem assistiu o filme e não entendeu bem (recomendo ler apenas quem já assistiu o filme, pois contém revelações sobre o enredo e pode 'estragar' sua visão sobre o mesmo).


"Metade da sala que exibia o filme ficou vazia no meio da projeção, no Festival de Cannes, em 1997. O crítico, cineasta e blogueiro militante Carlos Reichenbach abandonou o cinema, em São Paulo, aos gritos de “nazista” – e foi seguido por uma turba de espectadores indignados. “Violência Gratuita” (Funny Games, Áustria, 1997), de Michael Haneke, é um daqueles títulos que atiça os ânimos de quem assiste, e provoca reações extremadas de amor e ódio. Nesse sentido, antes de ser submetido a qualquer análise dos méritos cinematográficos, estéticos ou artísticos, é desde já um filme bem-sucedido, pois disparou um debate incessante de idéias, o que era exatamente o objetivo do diretor.

“Violência Gratuita” choca muita gente pela abordagem irônica, quase cínica, da violência. O verdadeiro alvo do cineasta austríaco, contudo, não está na violência em si, mas na representação cinematográfica dela, cuja escalada parece não ter fim, especialmente nos filmes de Hollywood – há longas-metragens em que mais de 150 assassinatos são mostrados displicentemente. A câmera de Michael Haneke não comenta ou critica a escalada da violência na sociedade. A tarefa a que o diretor se propõe é mais sutil do que isso. O filme força o espectador a contemplar sua própria condição de consumidor passivo – e, como tal, incentivador – de verdadeiros espetáculos de sangue e tripas.

Em síntese, o enredo é muito simples. O filme mostra uma família indo passar o fim de semana em uma tranqüila casa de campo, à beira de um lago, na Áustria. Nem bem se estabelecem, pai, mãe e filho são visitados por dois jovens, Peter (Frank Giering) e Paul (Arno Frisch). Sob o pretexto de pedir emprestados alguns ovos para um vizinho, a dupla arma uma pequena confusão cuja progressão termina em seqüestro. A família é então mantida como refém, enquanto Peter e Paul resolvem “brincar” com eles (os “funny games” do título original).

Até aí, nada de novo. A partir do momento em que pai, mãe e filho são feitos reféns, entretanto, Haneke começa a mostrar seu jogo. Primeiro de forma sutil: Peter, o líder da dupla delinqüente, fala com a câmera e dá piscadelas ao espectador, lembrando-o de vez em quando que está vendo um filme e, pior do que isso, colocando-o na inusitada posição de cúmplice passivo do ato de violência. Aqui, o diretor é traiçoeiro. As brincadeiras de Peter com a câmera fazem cada membro da platéia se identificar, inconscientemente, como uma espécie de terceiro agressor.

No fundo, o nosso desconforto é causado pela posição que ocupamos na narrativa: estamos mais próximos dos delinqüentes, a quem condenamos, do que das vítimas. Além disso, os seqüestradores, convenientemente vestidos de branco (talvez uma referência aos delinqüentes juvenis de “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick; a cor simboliza, no cinema, um ideal de pureza e paz que nada tem a ver com aquelas pessoas do filme), estão encenando uma peça macabra para a qual você, espectador, comprou um ingresso. Em certo momento, Peter é direto nesse ponto (“ainda não atingimos a duração de um longa-metragem”, diz, deixando evidente saber que é o personagem de um filme).

Essa auto-consciência dos personagens do filme como seres que integram uma narrativa artificial quebra uma regra sagrada da dramaturgia, chamada no teatro de quarta parede. Em outras palavras, o cinema é voyeurismo e, ao mesmo tempo, ilusão consentida; o tem consciência de que assiste a uma ficção, mas existe um pacto tácito, não dito, entre atores e platéia, para que todos finjamos que o que se encena é a realidade. “Violência Gratuita” quebra essa regra invisível, como já fizera outro filme maldito que expõe as vísceras do cinema, o genial “A Tortura do Medo” (1960), de Michael Powell.

Outra jogada inteligente de Haneke é jamais mostrar nenhum ato violento em si; toda vez que sangue vai ser derramado, a câmera desvia o olhar, deixando a cargo de cada espectador imaginar (a partir dos ruídos, que continuamos a ouvir) o que está acontecendo. A intensidade da violência, portanto, depende da carga de imagens violentas presente na memória de cada membro da platéia. Em outras palavras: quanto mais filmes de pancadaria e assassinatos você já viu, mais brutal parecerá o ataque contra aquele trio de personagens inocentes.

À medida que o filme avança, o grau de ousadia de Michael Haneke vai aumentando; a música, inicialmente calmas melodias de autores como Mozart, passa à barulheira infernal do saxofonista experimental John Zorn. Além disso, no momento em que os delinqüentes deixam a residência, o cineasta ousa apresentar um longuíssimo take – mais de 10 minutos – com a câmera parada, sem cortes, mostrando literalmente… nada. À platéia, só é permitido ouvir. Um dos personagens, ferido, está lutando para se libertar de cordas que o amarram, para poder ver o que aconteceu com outro personagem, espancado pelos delinqüentes. Os dois personagens não se vêem, e a platéia não os vê. Apenas ouvimos os urros de dor e angústia. Por mais de 10 minutos, tempo suficiente para que a dor presenciada na tela seja quase palpável.

Como se não fosse suficiente, Haneke ainda prepara uma última brincadeira bizarra para a audiência, uma brincadeira metalingüística que deixa muita gente irritada, pois derruba radical e propositalmente mais duas regras sagradas da narrativa clássica cinematográfica: 1) Mesmo quando a narrativa é cronologicamente embaralhada, a lógica temporal é semelhante à realidade, o que significa que não se pode mudar o passado (a não ser que o filme seja sobre viagens no tempo); e 2) a punição para quem comete atos de violência pode demorar, mas quase nunca falha e é geralmente violenta, numa tradução visual do ditado “olho por olho, dente por dente”. Pois numa única e genial seqüência, Michael Haneke ousa arrebentar essas duas regras com um cinismo único.

Claro, é possível questionar a existência de algum sentido, moral ou estético, para a experiência radical promovida pelo diretor austríaco. Para algumas pessoas, a proposta de Haneke é obscena e até perversa, na medida em que obriga o espectador a contemplar sua própria cumplicidade no espetáculo de violência promovido pelos heróis anabolizados de filmes que matam e mutilam dezenas de pessoas anônimas, sem mostrar que por trás de cada uma daquelas faces ensangüentadas existe um passado, um código moral – em suma, uma vida.

Para outros, a atitude é ousada e bem-vinda, pois tira do torpor e obriga à reflexão uma platéia acostumada a assimilar os filmes – e sua lógica, muitas vezes desprovida de qualquer senso de humanidade – como sorvete, sem jamais questionar o que existe de ideologicamente repulsivo, ou pelo menos discutível, na carga de imagens que se consume diariamente.

O diretor assume essa postura e nega com veemência a acusação, repetida pelos detratores, de que faz cinema com o propósito de chocar. “Estamos habituados a ver um cinema calmante, de entretenimento, que não nos confronta com a realidade. Mas, se quisermos ver o cinema como uma forma de arte, somos obrigados a esse confronto. E isso, muitas vezes, choca o público de hoje em dia. Eu faço um filme para me confrontar, eu mesmo, com um tema que acho importante, grave. Nunca tenho a idéia de chocar”, diz ele. Em “Violência Gratuita”, conseguiu.

É curioso perceber que os responsáveis pelo título nacional do filme já o julgam seguindo a lógica dos detratores, talvez sem perceber, através do uso da palavra “gratuita”. A violência do filme de Haneke pode ser ou não gratuita, mas isso depende da maneira como você, leitor/espectador, o interpreta. A melhor atitude diante do debate que se impôs sobre ele é não seguir qualquer posicionamento antes de poder analisá-lo sob sua própria ótica. Essa é, em última instância, o conselho mais útil que se pode dar a um espectador crítico e isento: julgue o filme por si mesmo."

Fonte da crítica: Cine Reporter

Assistirei novamente o filme para analisar mais a fundo o mesmo e tirar minhas conclusões definitivas.

Não deixarei o trailer pois acho que este é um filme que deve ser assistido, refletido e entendido, portanto altamente recomendo que o assistam, realmente vale à pena. Sem falar que ainda vou assistir a versão original, e voltarei aqui para dar minha opinião melhor em relação à ambos

Se bobear, considerarei este meu suspense favorito.

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