sábado, 9 de agosto de 2014

Kelith Yosprib

Bruxas, bruxaria, mortalha, blog mortalha















Assim que ela chegou em casa todos sabíamos o que tinha acontecido. Não foi preciso nenhuma palavra ser dita ou nenhum sinal ser feito. Todos nós sabíamos do resultado da ida de Paula ao médico. Ela estava lá, sentada em uma cadeira, aos prantos. Minha família inteira estava lá, ainda com o papel do resultado nas mãos, sem saber o que dizer para alegrá-la.

Eu me lembro de quando éramos crianças e brincávamos de várias coisas, mas o que mais alegrava minha irmã era suas bonecas. Cada uma tinha um nome e ela cuidava de todas com muito carinho. Esse era o seu sonho desde sempre, ser mãe. Paula já tinha lido vários livros sobre maternidade, gostava daqueles filmes sobre famílias felizes... Então veio a notícia aterradora de que ela não poderia engravidar.


Não foi só o sonho dela que acabou. O da nossa mãe também, pois eu, como minha irmã, não podia ter filhos e sendo nós seus únicos filhos o seu sonho de ser avó havia acabado. Quando recebi aquela notícia fiquei muito triste, mas admito que não foi tão inesperado, pois somos irmãos e sempre soube que era muito provável ela ter o mesmo problema que eu. 

A vida da minha irmã mudou muito depois da notícia. O seu noivo, um engenheiro bem sucedido, começou a visitá-la mais vezes lá em casa, pois ela andava um pouco depressiva. Por causa disso, minha mãe sempre buscava ficar por perto e as duas começaram a frequentar um grupo de mulheres, que parecia um daqueles grupos de ajuda como os Alcoólicos Anônimos. Aquilo me incomodava. Eu sempre achei grupos de ajuda a maneira mais ridícula de ajudar uma pessoa. Em vez de ficar com o resto da família e superar juntos a dificuldade, minha mãe e minha irmã optaram por um grupo de desconhecidas depressivas que diziam sofrer dos mesmos problemas e assim “trocavam” experiências.

Sempre que eu chegava em casa e olhava para as duas sentia a dor delas. Não como elas, pois fui o menos afetado, então tentei continuar minha vida normalmente, mas mesmo assim sentia aquela dor. A dor de ver o destino destruir seus sonhos e não poder fazer nada. Os meus sonhos não envolviam filhos, eles tinham mais a ver com conquistas. Eu gosto e sempre gostei de equipamentos eletrônicos e sempre quis trabalhar na construção de algum tipo de robô. Não fiquei muito triste quando descobri que não poderia ter filhos, talvez por que ainda sou muito jovem e não me importo com isso, mas quando vejo a tristeza da minha irmã me imagino sem poder trabalhar com tecnologia. Computação, eletrônica, robótica fazem parte da minha vida e não sei se conseguiria viver sem essas coisas, sem meu sonho. É disso que eu tinha medo: será que a minha irmã poderia viver sem o sonho dela?

Para ajudá-la a se recuperar, minha mãe decidiu passar uma semana na fazenda de um tio meu. Eu achei bom, pois as duas poderiam ficar com sua família verdadeira se divertindo numa fazenda, sem falar que eu tinha visto em algum noticiário que naquela semana alguns planetas iriam se alinhar e que seriam mais visíveis do que o normal à noite, principalmente longe das luzes da cidade e isso seria uma boa distração para a Paula.

 Para lá só fui eu, minha mãe, minha irmã e o noivo dela. Na fazenda moravam os meus tios, os seus três filhos e mais dois parentes que eu não saberia dizer o grau de parentesco. A fazenda basicamente tinha algumas vacas, porcos e galinhas. Ficamos divididos em três quartos, com minha irmã e seu noivo ficaram juntos.

 Quando anoiteceu, todos ficaram na sala conversando. Cheguei a contar uma história de terror, mas percebi um incômodo por parte dos meus tios e quando estávamos prestes a deitar para dormir perguntei para minha prima se eu fiz algo errado e ela me disse que era porque as pessoas da fazenda estavam assustadas com uma coisa que havia acontecido: “Uma noite meu pai percebeu movimentações no curral, pegou sua espingarda e foi ver o que estava acontecendo. Quando chegou lá viu três vultos fugirem rapidamente para a floresta. Quando amanheceu viu que as vacas estavam fracas, com feridas e cheio de símbolos estranhos por todo o corpo.”. Todos na fazenda sabiam que se tratava de bruxas e por isso o clima de medo.

 No dia seguinte, Paula e minha mãe haviam saído para se aventurar na mata com os meus primos e meu tio, então ficaram poucas pessoas na fazenda e assim ficou mais fácil para eu conversar em particular com o Otávio, o noivo da minha irmã. Perguntei sobre o que achava da Paula ficar se “tratando” com um grupo de desconhecidas e ele respondeu que achava esquisito, mas que estava dando certo e que ela estava muito feliz. Eu também tinha reparado nisso, minha irmã e minha mãe se recuperaram muito rápido e isso foi antes de virmos para a fazenda. Foi logo depois daqueles encontros de mulheres.

 Outra coisa que eu notei foi que quando minha mãe me olhava sua alegria virava seriedade. Não sabia o por quê, mas desconfiava que ela podia perceber em meus olhos o meu desconforto com aquela situação. No início fiquei com medo de que aquela alegria toda da minha irmã fosse na verdade uma tentativa de esconder uma tristeza profunda, mas não era o que parecia, ela realmente estava feliz. Isso me incomodava. O que foi que tinha acontecido para deixá-la tão feliz? O que elas conversavam naqueles encontros?

 Depois de horas na floresta elas chegaram, um pouco antes do anoitecer. Depois da janta cada um foi para o seu quarto. Por algum motivo, naquela noite eu estava inquieto e em uma das vezes que acordei de madrugada vi pela janela dois vultos entrando na floresta. Quando meus olhos se acostumaram com a escuridão, percebi que os vultos eram minha irmã e minha mãe. Saí da casa sem fazer barulho para segui-las. Como eu tinha demorado a sair, elas já tinham sumido pela floresta. Andei sem rumo por alguns minutos, até que encontrei, parcialmente oculta pela névoa, uma luz de fogueira. De tudo que elas tinham feito aquilo era o mais esquisito.

Quando me aproximei da fogueira, comecei a ver mais vultos e ouvir uma cantoria. Cheguei bem perto e vi minha irmã nua deitada inconsciente em um altar de pedra e em sua volta várias mulheres com vestes pretas e capuzes cantando uma música estranha em uma língua igualmente estranha. Desesperado, eu entrei no círculo que elas faziam para resgatar a minha irmã. Cheguei a ver o rosto de algumas e as reconheci, eram as mesmas mulheres que participavam daqueles encontros. Até minha mãe estava entre elas. A mais velha delas me olhou e no exato momento em que seu olhar se virou para mim, eu senti algo horrível. Era como se mil flechas atravessassem o meu corpo. Desmaiei imediatamente.

Acordei em minha casa, deitado na minha cama, sem a menor noção de quanto tempo havia se passado. Ao lado da minha cama estava a minha mãe, segurando um lanche para mim. Ao poucos comecei a sentir uma dor horrível na minha barriga e percebi que era fome, muita fome. Minha mãe me explicou que já fazia quase um dia inteiro que eu estava dormindo. Por causa do meu desmaio todos decidiram voltar para casa, mas não era essa a explicação que eu queria. Perguntei o que significava aquilo que eu tinha visto na floresta e ela, meio constrangida, me explicou que há gerações certas mulheres da minha família seguiam uma seita chamada Udik e que o que eu tinha visto na floresta era apenas um ritual de fertilidade para a minha irmã. Aquilo fazia sentido... Era por isso que minha irmã estava tão feliz: Podia ser mãe!

Nos dias seguintes a vida seguiu aparentemente normal, até que chegou outro resultado de exame que, como o primeiro, mudou completamente o clima daquela casa, só que para melhor. Minha irmã estava grávida! E semanas depois, em outro exame, descobrimos que eram gêmeos! Nunca antes as pessoas daquela casa ficaram tão felizes. Otávio, que só vinha aqui de vez em quanto, mudou-se de vez. Também fiquei muito feliz, mas bem no fundo eu sentia um incômodo.

 Os meses foram passando e a barriga da minha irmã crescendo. Quando já estava com quase 9 meses ela teve de ir ao médico fazer uma cesariana pois, já que eram gêmeos, o parto era de risco. A família inteira foi com ela ao hospital. O parto foi tranquilo e o casal de gêmeos nasceu saudável. Enfim a agonia da minha mãe e da minha irmã tinha acabado, mas a minha não.

Quando os gêmeos saíram do hospital, as duas mais o Otávio decidiram passar mais um fim de semana na fazenda dos meus tios. Paula me convidou, mas recusei. Ela insistiu várias vezes, o que não adiantou. Aquela fazenda me trazia péssimas lembranças e minha mãe sabia disso. Paula não fazia a menor ideia de que eu sabia sobre a seita, pois quando eu a havia visto naquele ritual, ela estava desacordada. Foi até por causa disso que pensei que ela estava em perigo. Ricardo, o meu pai, viajava muito e naquele fim de semana ele iria para outra cidade, então eu ficaria sozinho em casa.

O verdadeiro motivo de eu querer ficar sozinho em casa foi que dias antes me lembrei de que no porão da casa existia um baú grande trancado que há anos. Estava curioso para saber o que tinha dentro dele. Sabia que pertencia a minha mãe e desconfiava que ali iria encontrar alguma coisa sobre a Udik.

Quando todos se foram eu esperei um pouco e depois fui ao porão. Encontrei o baú e tentei abri-lo, mas ele estava muito bem fechado. Os cadeados que trancavam sua abertura eram bem grandes e resistentes. Não desisti. Peguei um machado nas ferramentas do meu pai e comecei a golpear aquele cadeado. Demorei vários minutos até conseguir abrir. Quando abri, encontrei vários objetos, como estátuas pequenas, colares, peças de roupa parecida com as das estátuas, entre outras coisas. Todos esses objetos eram muito estranhos, como se pertencessem à uma cultura que eu desconhecia, mas o que me chamou a atenção foi um livro. Comecei a folheá-lo. Muitas de suas páginas eram escritas em uma língua que eu desconhecia, mas havia vários desenhos e algumas anotações em português. O livro parecia conter rituais e feitiços. As partes em português e os desenhos pareciam servir para explicá-los, enquanto as partes na língua estranha pareciam ser as palavras que deveriam ser ditas enquanto eles são feitos.

 O livro era grande e passei um bom tempo folheando-o, até que encontrei um desenho de uma mulher nua sobre um altar. Lembrei-me imediatamente daquele ritual que vi aquelas mulheres fazendo com minha irmã, então comecei a ler o que tinha de português ali. O texto falava sobre dois deuses: a deusa Kelith e o deus Yosprib. Era complicado, mas consegui entender que no ritual os dois deuses eram convocados e que cada um daria uma criança para a mulher que estivesse no altar, mas que cada criança, em um outro ritual, deveria dar algo para o seu deus. Kelith era a deusa da alma, então a sua "filha" deveria lhe dar a sua alma, entrando para a seita. O problema era o deus Yosprib. Ele era o deus do corpo, então o seu "filho" deveria lhe dar o seu corpo, sendo sacrificado. Lembrei-me que minha irmã e minha mãe haviam ido para a fazenda e fiquei desesperado: Elas iriam sacrificar o meu sobrinho em outro ritual!

 Peguei meu carro e acelerei o máximo que pude para chegar bem rápido na fazenda. Não deixaria de forma alguma que elas matassem o meu sobrinho. Não conseguia imaginar as duas fazendo algo tão horrível, principalmente a minha irmã!... Matando o próprio filho! Será que ela seria capaz de sacrificar um de seus filhos para poder realizar o seu sonho de ser mãe com o outro?

 Tinha acabado de anoitecer quando cheguei na fazenda. Não perdi tempo e fui direto para a floresta, pois sabia que elas não estavam na casa. Quando encontrei o altar de pedra não vi ninguém, até que, de repente, duas corrente prenderam meus braços, como se elas tivessem vida própria. De dentro da floresta surgiram várias mulheres com aquelas vestes estranhas, era como se estivessem me esperando.

 De repente entendi. Eu e minha irmã éramos gêmeos e a doença que tínhamos era genética. Havíamos a herdado de nossa mãe. Assim como meu sobrinho, eu também era "filho" de Yosprib. Tentei me soltar daquelas correntes, mas as mulheres que as seguravam tinham uma força absurda, principalmente as mais velhas. No meio delas minha mãe apareceu, chorando. Ela me contou que já sabia que eu iria ser sacrificado e por isso se esforçou o máximo para me dar uma boa vida. Um sentimento de profunda tristeza, misturada com desespero e injustiça me dominou. Eu e minha mãe não conseguíamos parar de chorar. Enquanto eu ficava dizendo "Não!" sem parar ela me contou que era por causa desses rituais que minha família durou tantos e tantos séculos, sempre sacrificando o filho enquanto a filha levava a família adiante. Minha mãe também me contou que Paula ainda não sabia do sacrifício do "filho" de Yosprib, mas que contaria à ela em breve. Ou seja, minha irmã estava feliz por que ainda não sabia da futura morte de seus próprios irmão e filho.

As bruxas me colocaram no mesmo altar de pedra em que antes estivera a minha irmã e arrancaram a minha camisa. Com o sangue de algum animal, desenharam símbolos estranhos em meu peito e começaram uma cantoria que parecia ser daquela mesma língua do ritual anterior.

Um sentimento de injustiça e profunda tristeza tomou conta de mim e minha última lembrança foi uma faca prateada vinha em direção a meu peito.

Conto adaptado por Lucas Alves Costa de um conto da internet chamado “Sonho Tenso” de Guilherme Cury e Hansi Olbrich.