segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

As Senhoras de Salem














Um filme escrito, produzido e dirigido pelo notório Rob Zombie, e protagonizado por sua esposa, Sheri Moon Zombie. Repleto de cenas de adoração satânica e simbolismo oculto, temos parcialmente duas protagonistas (no singular e plural), a Hendi e algumas bruxas no qual seu passado as condenam, a levando assim a ser condenada, compreendemos isso no decorrer do filme.

Heidi (Sheri Moon Zombie) é a DJ da estação de rádio da cidadezinha de Salem, Massachussetts, notória pelo julgamento sumário de sete bruxas, queimadas vivas sob a acusação de terem realizado rituais satânicos usando mulheres da vila, nos idos de 1696. 

Depois que uma misteriosa caixa de madeira contendo um disco de vinil chega às mãos de Heidi, e ela escuta o macabro som, a sua vida se torna um indefinido limbo entre a loucura e a sanidade. A caixa é, conforme uma nota escrita, “um presente dos lordes”, e, quando o disco é tocado, revela uma sinistra melodia que se assemelha a uma gravação reproduzida ao contrário.


Uma vez fascinada pela melodia, Heidi passa a experimentar bizarros pesadelos, envolvendo as bruxas executadas em Salem, séculos atrás. Os sonhos são o menor dos problemas, pois logo os ataques sobrenaturais se fecham sobre a sua existência diária: ao fim do corredor, em uma noite, uma presença misteriosa parece tomar residência no apartamento n° 05, todavia quando Heidi questiona Lacy, a senhoria, a respeito de novos inquilinos, esta nega. 

Logo depois, Megan e Sonny, duas amigas de Lacy, passam a morar em unidades do condomínio, e procuram se aproximar de Heidi. Algo nas mulheres incomoda a moça, que se sente incomodada com toda a conversa sobre predestinação.

Um dia, durante o programa, Heidi entrevista um cavalheiro chamado Francis Matthias, um historiador que vem escrevendo um livro sobre o julgamento das bruxas de Salem. Heidi reproduz o disco ao vivo, o que imediatamente parece colocar as mulheres que escutam à transmissão em suas casas naquele momento em impressionante estado de transe, quase como se estivessem escutando a voz de um velho amigo há muito desaparecido (algum tipo de controle mental). 



Esta é a cena mais memorável e arrepiante do filme: vemos mulheres ocupadas com tarefas ordinárias diárias, uma se despindo para o banho, a outra no computador e por aí vai, então entra pela rádio a música, e deixam de lado o que estão fazendo para escutar hipnotizadas. 

Ao chegar em casa, Francis diz à esposa que algo na melodia lhe deu arrepios. Ao pesquisar intensamente o assunto, Matthias descobre que a música na verdade foi criada em 1600 pelas bruxas lideradas por Margaret Morgan, uma malévola feiticeira que, juntamente às “irmãs”, foi condenada à morte na fogueira, em Salem, e antes de morrer, rogou uma praga a todos os descendentes de Hawthorne, o reverendo que as acusou, e às mulheres de Salem. 

O historiador rastreia a árvore de ascendência da DJ Heidi, e conclui que a moça é descendente do reverendo que condenou Margaret Morgan à fogueira. 

Todas as vezes em que a estação de rádio reproduz a “música dos lordes”, Heidi sofre impressionantes alucinações visuais. Um dos colegas da moça, secretamente apaixonado, convida-a a ficar no seu apartamento, mas Heidi enxerga novas aterrorizantes visões, de sacerdotes sem rosto invadindo o lugar, executando o rapaz na sua frente e depois a esviscerando viva. 













Depois que cai em si, ela se vê dentro do quarto, no seu apartamento, sozinha. Ela não está mais conseguindo dissociar muito bem realidade de delírio. Heidi é uma ex-dependente química, e o filme, no início, a mostrou frequentando reuniões de pacientes em reabilitação. 

Todo o caos causado pela “música dos lordes” e as visões bizarras que a têm assombrado a enfraquecem o suficiente para que volte a consumir drogas como comprimidos. Isso até ser "resgatada" por Lacy e as suas “irmãs”, na verdade bruxas que vêm aguardando pelo retorno de Margaret Morgan, e que este tempo todo têm vigiado e estudado Heidi, a única descendente do homem que condenou Morgan à morte em 1696.













Drogada e vulnerável, ela é levada pelas “irmãs” ao misterioso apartamento 05, ao final do corredor. Neste ínterim, o historiador Francis Matthias liga para o apartamento de Heidi para alertá-la, mas uma das bruxas atende e diz que Heidi nao está, e pede que o mesmo nao incomode. Inconformado, Matthias descobre o endereço da DJ e visita o prédio. 

Ele é recebido pelas “irmãs”, e Sonny o mata, assim que o historiador lhes explica que veio para contar à garota sobre o risco que corre e que a música não passa de um ardil satânico dos “lordes de Salem”. Cada vez mais dominada pela influência das bruxas, Heidi se torna o instrumento pelo qual as mulheres pretendem invocar 'o Diabo'. 

Pela estação de rádio, um grande concerto dos “lordes de Salem” é anunciado. Na noite da apresentação, os cidadãos de Salem comparecem, contudo, no palco, o que ocorre nada tem a ver com performance artística. As “irmãs” reproduzem a música e Heidi começa a se despir no palco. 

Ela sofre uma surreal metamorfose e dá à luz um monstro. Neste ponto, as pessoas presentes ao concerto, que não as bruxas, estão mortas. Margaret Morgan retorna das trevas com as suas “irmãs”, as bruxas que morreram ao seu lado em 1696. 

O filme conclui com uma intromissão de rádio, noticiando que ocorreu um terrível suicídio em massa e que Heidi está desaparecida.


















Filme tétrico, difícil e pesado, esta inspirada combinação de gêneros e estilos presta sincera homenagem aos grandes nomes do horror do passado, e para o seu diretor Rob Zombie, significa a oportunidade perfeita para revisitar a inspiração, o charme e a elegância do cinema europeu dos anos 70, elementos que vêm faltando aos suspenses de hoje. 

Zombie vem se consagrando como uma das vozes mais interessantes do ressurgimento do cinema de horror, que pelas duas últimas décadas vinha mal das pernas, em produções pouco inspiradas com roteiros risíveis e atuações piores, e somente recentemente ganhou fôlego. 

Por causa do trabalho de novos diretores tais como Zombie e James Wan, a seriedade, a melancolia e a originalidade características dos grandes clássicos do passado, tais como Hellraiser, estão ensaiando um retorno aos cinemas. 

Se vocês procurarem ler a respeito deste trabalho de Rob Zombie, encontrarão opiniões diametralmente opostas; alguns elogiando a obra, outros a tomando como um punhado de bobagens incompreensíveis e pretensiosas, com direito a tomadas estilísticas e artísticas que somente o seu diretor poderia explicar. 

A recepção ao filme não parece encontrar o meio-termo, o que é uma grata surpresa, pois geralmente filmes que produzem opiniões tão antagônicas são grandes obras!














As pessoas que gostam de filmes de horror conhecem muito bem o trabalho do cineasta italiano Dario Argento. Um dos grandes mestres do horror, veio da mente de Argento os coloridos extravagantes, os excessos, e os bizarros delírios de horror do giallo e fantasia europeus dos anos 70 e começo dos anos 80, muito bem simbolizados por sua obra-prima Suspiria. 

Os trabalhos de Argento sempre pulsam de criatividade e estilo: ao se discorrer sobre “Lords of Salem", Suspiria, de 1977, com o seu visual de encher os olhos, é a obra que me vem imediatamente à mente, como se Zombie tivesse pedido emprestada a palheta de cores de Argento para pincelar a própria obra com as mesmas texturas berrantes e fortes; bem como me vem à mente “Phenomena”, com a linda e talentosa Jennifer Connelly, que parece ter igualmente influenciado o acabamento de Zombie, com um charmoso toque de rusticidade do Velho Mundo. 

Além da influência de Argento, o que vemos neste filme também nos sugere que o trabalho de Stanley Kubrick teve enorme importância para seu imaginário artístico, e são nos movimentos de câmeras, nas pequenas sacadas, que o cineasta rende homenagens a O Iluminado. 

Quando observamos o comprido corredor do prédio onde Heidi vive, ao final do qual se localiza o quarto 05, nos vem à mente a tomada ininterrupta de O Iluminado, com o garotinho Danny andando de triciclo até topar com os espíritos das duas irmãs gêmeas trucidadas pelo pai a machadadas, ao término do corredor longo e estreito. 

A presença despercebida do espírito de uma bruxa nua, no apartamento de Heidi, que somente nós parecemos enxergar, e a insuspeita protagonista não, nos enche de horror, e novamente nos faz pensar na Senhorita Massey de O Iluminado, o fantasma trágico do quarto 237 que personifica o amor não correspondido, e que emerge da banheira sempre que alguém se aventura pelo cômodo. 

Ainda com Kubrick, Zombie aprendeu a técnica de adicionar súbita e crescente música incidental às cenas mais surreais, provocando em seus espectadores o mesmo desconserto, a mesma angústia, a mesma expectativa que Kubrick soube evocar em todas as obras, principalmente em 2001 Uma Odisseia no Espaço. Em “Lords of Salem”, há muitas cenas onde pouco de assustador ou violento ocorre, todavia a combinação de música a sugestões sutis e tétricas causam angústia tamanha que nem mesmo todo o barulho e sangue do mundo jamais seria capaz de rivalizar. 

Rob Zombie parece ter um carinho especial a estas obras originais e nostálgicas, hoje praticamente esquecidas, e é este amor que mais chama a atenção e transcende o celuloide. 














Os nomes que compõem o elenco dão uma pista do carinho do cineasta ao gênero ao qual rende homenagem. Os amigos se divertirão com os rostos conhecidos – Dee Wallace, de Cujo e ET, O Extraterrestre, no papel de Sonny, uma das "irmãs" do trio de bruxas, Michael Berryman, o mutante de The Hills Have Eyes, de Wes Craven, como um dos sacerdotes sem face dos “lordes”, Ken Foree, do clássico Dawn of the Dead, de George Romero, como o colega da estação de rádio, Meg Foster, de A Floresta das Esmeraldas, de John Boorman, memorável no papel da apavorante bruxa principal, recorrente nos pesadelos de Heidi, cada vez mais indissociáveis da realidade.

Matéria adaptada de: Os Melhores Filmes de Horror