domingo, 25 de outubro de 2015

Gritos da loucura





















As paredes parecem envelhecidas, manchadas por marcas de mofo, tudo parece instável e meio invertido, assim como o crucifixo torto na parede ao lado do espelho que refletia a expressão pálida e depressiva de meu rosto, acabara de acordar e não conseguia lembrar onde estava, muito menos quem eu era.



Na tentativa de levantar minhas pernas fraquejam e caio no chão como uma pedra, algo machuca minhas costas, enquanto tento controlar a dor da pancada tiro debaixo de mim uma enorme câmera, analiso a mesma ainda deitado no chão, um modelo intrigante, provavelmente bastante antigo.

Em uma fração de segundos que apoiei a mão no chão para levantar senti alguém passando atrás de mim, me virei com toda velocidade que podia, mas não havia ninguém, apenas a porta mostrando a sala vazia, com manchas por toda a parede, manchas de mofo como no quarto. Aquele cômodo não me era estranho, percebi isso enquanto caminhava em direção a um quadro pendurado de uma forma descuidada em uma das quatro paredes.


Minha cabeça latejava, e quanto mais forçava a memória mais profunda era a dor, mas isso não importava, o fato é que eu não lembrava nem do meu próprio nome e estava em um lugar digno de filmes clichês de terror, o que seria cômico se não estivesse tão assustado e desorientado.


De repente alguém me puxa pelo ombro, me viro de súbito e dou de cara com uma jovem mulher trajando um enorme vestido de época azul escuro, sua beleza era encantadora, ela me puxou para dançar junto à música melancólica que todos os presentes ali dançavam. Exatamente, a sala estava vazia e de repente surge um número incontável de pessoas.


Eu parecia me mexer involuntariamente, meu corpo seguia apenas o ritmo lento da música, e os olhos tristes da moça começavam a pesar sobre mim, era difícil não olhar para eles, tão belos e chamativos, tão cheios de nada, o nada parecia me atrair mais que tudo naquele momento, vi minha vida inteira passar diante de meus olhos em uma rapidez que não combinava com a música.


Vi como em uma premonição minha vida, me senti o telespectador de mim mesmo, como se estivesse de frente para um grande espelho, os momentos não estavam organizados na ordem correta, levou um tempo até que eu percebesse que estava revendo todos meus momentos, começando do mais feliz até chegar ao mais triste. As coisas começaram a ficar tensas, para quem não teve nenhum momento feliz, ver aquilo não era nada agradável, e eu queria sair dali, porém não sabia como, o quem me fez entrar em pânico instantaneamente.


Enquanto tentava sair daquele bizarro estado de consciência comecei a tirar fotos loucamente, e a cada flash que a câmera disparava eu me sentia mais leve. Tudo começou a escurecer aos poucos, a música que tocava já não era mais a mesma, e as pessoas começavam a tirar máscaras, inúmeras máscaras que não acabavam mais, não sei o que era mais bizarro, o fato de todas as pessoas estarem extremamente deprimidas, ou o fato das máscaras parecerem extremamente deprimidas.


Meu cérebro já não conseguia processar corretamente o que estava acontecendo, aumentando minha dor de cabeça. Joguei a câmera no chão e corri em direção a porta no canto da sala, ao abrir a mesma deparei-me com um enorme corredor repleto de portas.


Comecei a caminhar entre as portas, todas estavam fechadas e numeradas diferentemente. Vale lembrar que pareci caminhar durante horas, as portas não acabavam, os números iam somente até o trinta e cinco e tudo começava a se repetir. Permaneci nesse angustiante lapso de tempo até encontrar uma porta aberta, então entrei.


As paredes parecem estar mais agradáveis, tudo parece estável novamente, assim como o crucifixo torto na parede ao lado do espelho que refletia a expressão pálida e depressiva de meu rosto, acabara de ter um surto psicótico e não conseguia lembrar onde estava, muito menos quem eu era.


Autor: David Alves Mendes

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